Luto por suicídio: Vergonha

A morte por suicídio tem uma natureza violenta e pública. É nesse contexto que os enlutados relatam sentir uma profunda vergonha, sendo essa emoção uma das principais associadas a esse tipo de luto.
Nesse ínterim, a vergonha nasce do peso social atrelado ao suicídio. Apesar de muitas religiões não estigmatizarem o suicídio de forma tão explícita quanto antigamente, ainda há muita ignorância relacionada à esse tema. Além disso, ocorrem muitos mal-entendidos acerca do suicídio e de doenças mentais. É muito comum as pessoas não saberem o que dizer quando ouvem que alguém faleceu por suicídio.
Muitos enlutados sentem uma aura de vergonha com relação ao suicídio, o que lhes causa problemas inesperados.
O primeiro problema está em informar os demais da morte. Pode ser tentador ocultar a verdade, mas isso sempre acarreta complicações posteriores. Seja tão honesto quanto puder sobre a causa da morte sem entrar em detalhes.
De maneira geral, há a sensação de que estão falando de você, e pode ser tentador isolar-se dos outros. É importante perceber que, com a maior compreensão que temos hoje do suicídio, não há nada de que se envergonhar.
O isolamento vem da sensação de solidão, de que somos os únicos passando por isso. Procure ajuda, pois há outros como você. Grupos de apoio, psicólogos, psiquiatras estão disponíveis para lidar com a questão de forma profissional e cuidadosa.
Você pode sentir vergonha de achar que não está lidando com o luto. No entanto, vivenciar o luto é um processo. Há evidências de estarmos lidando com o nosso luto - lágrimas, expressar verbalmente ou de outra forma, escrever num diário, entre muitos outros, são um sinal de que você está lidando com seu luto.
Os homens são educados para serem "fortes", e, quase sempre, eles têm mais dificuldade para falar de suas emoções que as mulheres. No entanto, hoje se sabe que é necessário que ambos falem e expressem suas emoções, pois a vergonha acomete pessoas independentemente do gênero.
A boa notícia é que a vergonha pode ser diminuída, e inclusive sumir, quando lidamos com ela da forma adequada. A pesquisadora Brené Brown definiu a vergonha como o sentimento de "não nos sentirmos dignos de sermos amados", o que é uma grande descoberta, pois podemos entender que a sensação de não sermos dignos de sermos amados já é por si só uma mentira - todas as pessoas são dignas de serem amadas.
A forma com que a autora descreve em como lidarmos com a vergonha é através da empatia. É conversarmos com alguém de confiança, e que tenha sensibilidade o suficiente para nos ouvir sem nos julgar. É alguém que irá acolher essa dor, para que ela diminua, até desaparecer.
Dessa forma, é possível lidar com a dor de formas saudáveis. Procure um amigo ou familiar para conversar, e caso não haja alguém com esse perfil em sua rede, ou mesmo caso você entenda que precisa de ajuda especializada, procure um grupo de apoio, um psicólogo, um psiquiatra especializados no assunto luto por suicídio - alguém muito provavelmente poderá te ajudar.
É possível lidar com todas as emoções relativas ao luto por suicídio, quando temos autocompaixão e criamos um lugar de hospitalidade para os nossos sentimentos, de acordo com a autora Karina Okajima Fukumitsu.
Portanto, que a vergonha não seja um impedimento para criarmos novos propósitos a partir do nosso luto, e sim um propulsor nesse processo.
Fonte: "Depois do suicídio", Dra. Sheila Clark
"Eu achava que isso só acontecia comigo", Brené Brown
"GEPeSP entrevista: KARINA OKAJIMA FUKUMITSU"




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