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Luto por suicídio: Rejeição

Foto do escritor: Letícia Sayuri Pastore
Letícia Sayuri Pastore
26 de ago. de 2025
4 min de leitura

Atualizado: 25 de mar.



Pensamentos relacionados à perda


Você pode achar que seu ente querido não o queria mais e por isso o desertou ou o rejeitou. Essas emoções deixam as pessoas se sentindo desesperadamente magoadas ou mesmo insultadas. Algumas se perguntam se o seu ente querido fez aquilo como revanche.


Você pode sentir que o seu ente querido preferiu se matar por sua causa e que essa "opção" torna seu luto diferente. No entanto, geralmente eles estavam tão absortos e profundamente mergulhados em seus próprios problemas que não tinham consciência dos efeitos que o suicídio poderia causar. Geralmente, sua meta era obter alívio para o estresse.


Você pode achar que suas tentativas de ajudar seu ente querido antes da morte foram rejeitadas. Uma mente perturbada fica aquém da aceitação de ajuda, depois que a ideia de suicídio se estabelece.



Enlutados por suicídio


Edwin Shneidman, um dos autores de maior renome no assunto morte e suicídio, dizia que o indivíduo que falece dessa causa de morte está vivenciando os 3 D's: Desespero, Desamparo e Desesperança. E, quando um enlutado não se permite viver o seu processo de luto e passa a sofrer e internalizar a sua dor, pode entrar na possibilidade de ser considerado grupo de risco.


Portanto, é importante que você se dê a chance de ter autocompaixão, se acolher e buscar a cura.



Rejeição


Jia Jiang, autor do livro "Sem medo da rejeição", escreve que, ao vivenciar uma dor física, o cérebro humano libera opioides no corpo, que são substâncias químicas analgésicas produzidas a fim de diminuir a dor e nos ajudar a suportá-la. E, ao sentir rejeição, são as mesmas substâncias liberadas no corpo. Ou seja, o nosso cérebro se comporta, quando sofremos uma rejeição, como se tivéssemos sofrido um trauma físico.


Por isso, é compreensível que tantos de nós sintamos medo de sermos rejeitados. Por vezes, temos um medo visceral dela.


Mas porquê? Porque, de acordo com pesquisas e estudos científicos, ao longo da evolução humana, o ser humano aprendeu que, ao caçar grandes animais, a chance de sobrevivência é muito maior se as pessoas permanecerem em grupos do que separados. Ser rejeitados significaria ter que enfrentar leões ou lobos sozinhos. Nessa situação, a rejeição social poderia significar virar comida de leão. No entanto, na nossa sociedade moderna, não há mais esse perigo. O medo da rejeição pode ter salvado muitos de nossos ancestrais de serem expulsos de seus grupos sociais, mas em geral não faz mais sentido em nossa vida moderna. Na verdade, é mais um fardo do que uma medida de segurança. Se a rejeição fosse um órgão, sera um apêndice em vez de um coração. No entanto, seu efeito é muito mais prejudicial do que uma possível apendicite, porque a consequência de não tentar novas coisas devido ao medo da rejeição não pode ser curada com uma ida ao pronto-socorro.


E, ao falar sobre luto por suicídio, a rejeição muitas vezes é social, e na maior parte dos casos, as pessoas à nossa volta não estão preparadas para nos acolher ou nos aconselhar em relação ao ocorrido. E pior, quando já nos sentimos rejeitados pelo nosso ente querido que faleceu, nos sentimos mais rejeitados ainda pela sociedade.


Ao sermos tratados assim, acabamos por vezes tratando a nós mesmos com rejeição, rejeitando quem somos, como repetição e por acreditar que é o que merecemos devido ao ocorrido. Felizmente, essas são mentiras que podem ser superadas e esquecidas quando lidamos com a rejeição das formas certas.



O que fazer, então? Como lidar com a rejeição?


A rejeição é um mecanismo de defesa da nossa mente, e também um mecanismo instintivo.


Dessa forma, quando o assunto é rejeição, é importante que saibamos onde buscar ajuda. Há muitas formas de lidar com esse assunto, e inclusive conseguir "dar a volta por cima", colocando luz sobre o assunto e nos tratando com dignidade e respeito.


  1. Há muitos lugares onde pessoas que passaram pelo mesmo ocorrido se reúnem e trocam experiências. Enlutados por filhos, filhas, pais, mães, irmãos, irmãs, sobrinhos, sobrinhas, avôs, avós, maridos, esposas, tios, tias, amigos, amigas... são associações, grupos de apoio, instituições, das mais diversas. Procure uma instituição na sua cidade, e, caso não haja, procure um local ou grupo online que poderá te acolher. Falar que se sente rejeitado é uma excelente forma de começar a curar essa ferida em você.


  1. Há, também, muitos cursos, vídeos e livros sobre o assunto. Você pode buscar letrar-se, ler sobre o que há em relação à esse assunto, dos muitos pesquisadores e outros enlutados que escreveram sobre sua própria experiência. Chama-se isso de "biblioterapia" - a capacidade de sentir o efeito terapêutico a partir do letramento próprio daquilo que nos incomoda e nos perturba. Livros como "Depois do Suicídio", da Dra. Sheila Clark, "Vida após suicídio", da Jennifer Ashton e "E foram deixados para trás", do Pe. Lício de Araújo são boas pedidas caso você sinta que a biblioterapia funciona pra você.


  2. Caso você sinta que necessidade, busque um profissional especializado nesse assunto. Psicólogos, psiquiatras que têm conhecimento e experiência no assunto luto e luto por suicídio poderão te auxiliar, caso precise.


  1. Em dado momento de nosso luto, percebemos que precisamos voltar à luz e à alegria que o nosso ente querido representou para nós em vida. Chama-se isso de honra. Podemos, enquanto os que ficaram, honrar aquele que amamos, e que foi importante para nós em vida. Mesmo que isso pareça impossível. Mas há tempo para tudo. Karina Fukumitsu, outra suicidologista, chama isso de "extrair flor de pedra". E uma das melhores formas de honrarmos nosso ente querido é sobrevivendo à sua morte. Rodrigo Luz, autor do livro "Luto é outra palavra para falar de amor", diz que "todo pequeno esforço para sobreviver, mesmo quando a dor é profunda e intensa, constitui uma forma de honrar a vida de quem vai e de quem fica. Isso só acontece porque sobreviver é uma prova de amor. É dar prova de amor a quem se foi, pois o enlutado simplesmente resolve que não vai deixar o amor perecer.



Fonte:

"Depois do Suicídio", Dra. Sheila Clark

"Sem medo da rejeição", Jia Jiang



 
 
 

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