Do luto à homenagem: reflexões de uma psicóloga

Seria a vida uma espécie de prova onde a necessidade de ressignificar o que de ruim nos acontece é um pré-requisito para o próprio desenvolvimento? Creio que sim.
O luto por suicídio é um processo que apresenta muitas camadas. Camada após camada, layer after layer, o enlutado percorre a sua jornada solitário, mas ao mesmo tempo acompanhado, de forma muitas vezes curvilínea, não-linear. Percorrendo curvas e mais curvas.
Na sua longa jornada de ressignificação, o enlutado muitas vezes busca respostas de todas as formas que a sociedade nos manda fazer: remédios, distrações, superação a todo custo, fugas, culpabilização externa, justiça com as próprias mãos, excesso de trabalho, excesso de adrenalina. Mas tudo isso cansa. Cansa viver uma vida terceirizada. Cansa viver uma vida superficial. Viver, não vivendo, cansa.
Cansa também esperar que a melhora seja externa. Que ela venha de fora. Cansa mostrar pra sociedade aquilo que ela própria em sua magnânima ignorância, ainda desconhece. Ainda finge não ver. Cansa carregar uma cruz que lhe foi dada por terceiros. Essa vida, dessa forma, cansa.
Mas também cansa uma vida de repetições de ciclos. Cansa repetir os erros das gerações anteriores. Cansa fingir que nada aconteceu, tocar a vida como se fosse essa vida que nos foi dada fosse um mar de rosas e desviar daquilo que insiste em nos alcançar. Isso também cansa.
A beleza vêm de escolhermos fazer algo bonito daquilo que nos aconteceu. De olhar pra si, diante de toda a sua amargura, e escolher dizer: eu vou fazer diferente. Eu vou dar um significado bom para o que me ocorreu. Eu vou percorrer o caminho em que eu, primeiro, melhoro. E depois, eu ajudo outras pessoas. Eu vou viver a minha vida da forma mais feliz e bonita possível em homenagem àqueles que eu amo, e que partiram. Eu escolho brilhar a minha luz, mesmo em meio à tanta escuridão. Esse caminho é o que vale a pena. Talvez, esse seja o único caminho que valha a pena. Ele pode até cansar às vezes, mas as recompensas vêm e são inevitáveis. Ter uma vida bonita também é uma escolha.




Comentários